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POESIA E REALIDADE
Joaquim Moncks
A propósito de minha obra: os poemas não são de interpretação fácil. Todos exigem um maior ou menor grau de reflexão.
Aliás, se, ao pegares um texto pela vez primeira, ao lê-lo de cabo a rabo, e, ao final da leitura tiveres entendido tudo, sem restar nenhuma dúvida, o texto pode ser qualquer coisa, menos Poesia. Porque esta não tem este condão: o de passar fácil na cabeça do leitor.
Ela mexe com o íntimo, leva-te a viagens imprevistas e inusitadas, sugere vida e morte. É para quem quer ser praticante de exercícios incomuns. Serve ao autoconhecimento e nos deixa em forma para entender melhor a desgraça e a dor. Com ela e por ela também se valorizam os dias alegres e a beleza de uma flor ou o orvalho sobre a folha derramado, num dia gélido de inverno, em que tudo é hostil, mas a flor ilumina a paisagem rude com os raios da Beleza.
Vês o que é o cacoete? Já estou fazendo poesia, fugindo ao objetivo de uma simples e despretensiosa cartinha de amigo. Mas, como falo a uma poetisa sazonal, mas não apenas bissexta, sei que não semeio no deserto. Voltemos ao objetivo.
A propósito de versos: conheço as regras, mas não os organizo em formas clássicas. Sonetos, trovas, haicais, acrósticos, enfim, os versos metrificados não são a minha praia. Nunca publiquei nenhum deles, apesar de haver feito alguns por necessidade de ofício. Por questão de gosto pessoal, sempre fiquei com a estética atual – o poema moderno, em versos brancos, sem métrica e rimas.
Entendo que o verso metrificado é a estética do passado. Reproduzia, em arte literária, o andamento da vida até meados do século XX. Se a vida mudou, se a cabeça das pessoas mudou, se tudo se tornou diferente, menos formal, e se a arte copia a vida, como acredito ser verdade, não há como fugir do verso branco, sem rima, debochado e desajeitado. O poema contemporâneo debocha da vida e traz em si a criticidade pertinente aos tempos atuais.
Uma poesia amarrada ao passado, com o cadenciamento das ruas e dos salões de Paris, ou da política dos cafés literários e saraus à moda antiga, cheia de cochichos ao pé do ouvido das amadas é um contra-senso aos modos de amar da atualidade. Como entender os salamaleques dos jogos de amar de 1930, se hoje a mulher aos 12 anos já sabe da necessidade de usar os contraceptivos e a televisão escancara o uso da "camisinha" masculina e feminina aos olhos e ouvidos das crianças? Temos um lirismo novo, mal comportado? Ou seria a vida em suas constantes transformações?
O humano é o mesmo, mas os seus hábitos e ações são diferentes. O jogo do amar é mais livre, menos comportado aos olhos do tempo passado. A liberdade dos toques, afetos explícitos, tende a produzir uma literatura desenvolta, às vezes até licenciosa, desavergonhada... Mas é o humano em sua caminhada até o Armagedon, diriam os que vêem o pecado em tudo. Ou os hipócritas e saudosistas.
Fico com o verso livre, copiando a vida, para que a poesia não se esfume na cabeça dos jovens, estes que carregam as explosões e impulsos dos desejos do amar em todos os tempos. Que buscam a felicidade em todas as suas nuanças e formatos.
E nessa busca se afundam nos meandros das drogas lícitas e ilícitas. Na observação dos atos da juventude atual o que seria mais nocivo, destruidor da esperança e dos sonhos dos pais...
O vício da drogadição sob todas as suas fórmulas e requintes?
Ou cenas explícitas de "blogs" e portais na grande rede em que aparecem as descobertas – novos jogos do amar – o olho indiscreto da webcamcentrado nas partes genitais revelando atos e intimidades sexuais no monitor do computador?
Será que os jovens conseguirão entender que a Poesia é a transfiguração da matéria da vida – o produto da arte que copia a vida – acaso os versos (escritos ou falados) contenham uma expressão do amar que em nada sugere os tempos em que vivem?
Que amar é este que não existe a não ser na expressão poética? É o que me fala a maioria dos jovens com quem convivo em palestras e eventos literários: – Tio! Não entendo como estes versos são tão babacas! É lindo, mas não é o real!
Ou seria porque o jovem ainda não viveu o amor retratado na poesia de todos os tempos?
Eis que ligo o aparelho de TV e tudo o que vejo em manchete são os atentados à vida e ao patrimônio, terrorismo, homens-bombas, seqüestros a tiros e granadas e tropas de elite do Estado a responder aos fogos da injustiça social com os estrondosos canhões da boçalidade brasileira sob os aplausos das autoridades públicas e de grande parte da população burguesa acossada. Para estes temas há sempre espaço na mídia.
Para o pensamento poético, no Brasil, sequer há janelas como os tais “Cadernos de Cultura” ou “Suplementos Culturais” existentes até a década de oitenta, nos jornais mais importantes do país. Hoje em dia nem nos jornais tidos como “Cult” há espaços à altura da dignidade da Poesia.
Bem, deixemos que o tempo e os ferretes de minha condenação marquem a angústia de tentar solidariedade em tempos de amor sem lirismo e numa realidade em que a vida e o desamor conduzem à angústia e à perplexidade.
Voltemos à realidade objetiva.
ACERCA DE VERSOS COM POESIA
Joaquim Moncks
"BRASILIS"
ALINE ROMARIZ
Somos todos índios
caboclos,mulatos,
negros...
Vivemos nos Pampas,
na caatinga,na restinga,
no cerrado...
Estamos no mesmo barco!
Num "navio negreiro"
camuflado;
Navegando Chicos,
Tiêtes,negros...
Somos filhos de um só Brasil,
que são tantos!
Irmãos das Raparigas (ou Marquesas?)
do porto de Santos...
Somos todos pajés,caciques,
curumins insanos...
Somos tantos!
Tocando a vida;
escondendo o pranto...
Vivemos todos "sob o mesmo céu"
de uma terra linda, de "um pau de tinta"
chamado BRASIL!"
Querida Aline, poetamiga!
Interessante o poema. De um temário muito oportuno (afinal estamos em abril) e meticulosamente bem lavrado... Um apanhado histórico e sociológico de difícil concepção em poética. Enfim uma bela obra.
Acabo de arquivar o poema BRASILIS em meus arquivos implacáveis. É uma obra de temática ardorosa de brasilidade, bem diferenciada do comum habitante do universo feminino.
Em verdade Pátria é útero paridor. Mas nesta obra o decantado Brasil é másculo em suas tintas. Os vocábulos trajam a virilidade do sempre Amado...
Peço licença pra publicar o “Brasilis” no mais importante jornal literário daqui do Sul: o RS LETRAS. Manda-me uma autorização com a liberação de direitos autorais e de publicação sem ônus para o editor, acaso aceites, OK? Parabéns.
Para quem está acostumado a ter de se conformar com o lirismo amoroso e subjetivo dos "recadinhos de amor", confundindo estes com a eterna Poesia, meu coração e cuca ficam a pensar que nem tudo está perdido.
É sinal que alguém ainda sabe o que são versos com POESIA. Sim, porque o usual é que ninguém se preocupe com o que quer dizer, o que encerra este gênero literário. E se fortaleça na desculpa de que é somente uma necessidade de “expressar-se”, de abrir um canal de comunicação com o mundo.
Sim, porque o lugar comum entre os escribas novatos e novos é a ocorrência de versos SEM POESIA... Principalmente o rol de publicações que aparecem na NET. Versos, meros versos de experimentação e busca...
Por vezes, alguns conseguem chegar ao embrionário, em poesia, mas não passam disto. Faltam linguagem e rítmica poéticas quase sempre. E a metáfora, rainha do vestuário poético, é convidada que não comparece...
Já estava com muita saudade de ti! Estás ainda morando em Campinas ou já te foste de volta para Maceió? Tua irmã é membro titular na Academia Alagoana de Letras, não é?
Como vão os amigos do Centro Cultural Anti Matéria? Continuas trabalhando na instituição?
Tens alguma notícia da Casa do Poeta de Campinas? Gostaria que mandasses algumas novidades aqui para o Sul.
Não tenho viajado e não tenho previsão de ida a São Paulo, a não ser que realizes algo em nível nacional por aí... Quer tal a sugestão?
Fico sempre muito feliz quando os meus irmãos na luta pela Poesia apresentam versos sábios e que propiciem o encantamento.
Bem, verdade é que os alumbramentos são raros. Por isto mesmo é que nos aproveitamos e nos encorajamos a falar publicamente sobre coisas quase que proscritas aos olhos dos que desejam vir a ser, mercê dos desejos e afincos – poetas.
É para estes - os comprometidos - que escrevo minhas loucurinhas críticas. É bom caminhar de mãos dadas com a pesquisa e o estudo. Quem intui, pode um dia vir a ser...
– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre Prosa e Poesia. Porto Alegre, Alcance, 2008, p. 135/7. http://recantodasletras.uol.com.br/cartas/953081
TOCAR A VIDA PORQUE A FILA ANDA...
Joaquim Moncks
Não gosto de meter a colher no "doce" de outros confrades, mesmo que conheça suficientemente a poesia de apresentação formal clássica (de formas fixas) para poder opinar, mas é uma questão de cânones da contemporaneidade. Não posso – com meu trabalho analítico – avalizar formas poéticas que considero ultrapassadas, além de não me ser prazeroso.
Se tiveres paciência para ler alguns de meus textos ensaísticos publicados no Recanto das Letras, verás que exponho publicamente minha restrição ao soneto clássico (criado na atualidade: séc. 21), porque o considero representante da escola de rimação e de silabação fônica, que o escoar do tempo escoimou.
E o dito soneto moderno (usual nos dias de hoje) não é soneto, é apenas um poema de quatorze versos... Alguns saudosistas da velha escola resolveram inovar e fazer concessões ao passado... Essa prática deforma a beleza original métrica da sonetística.
Entendo que não é uma mera questão de opção estética (escrever em versos rimados ou em versos brancos), mas, sim, identifico os versos sem rimas como uma expressão da contemporaneidade formal pautada pela liberdade de criação.
A poesia metrificada traduz a vida plasmada no passado; contém, em sua proposta romanesca, o lirismo que já não mais existe, porque o amar transfigurou-se no “ficar” e nesse rumo das relações afetivas é a imediatidade que modula...
O “ficar” era o namoro às escondidas, “atrás da igreja”, como se dizia... Nos dias de hoje é o sexo aberto, na caradura, impudente, as individualidades de modos excessivamente desembaraçados... Certo? Errado? Porém é o que está aí aos olhos da sociedade, tornando regra o que era exceção...
Se a vida mudou, transmutou-se, agilizou-se, ganhou novas nuanças, criou ritmo frenético para o pensamento e para o dia-a-dia, como o trânsito e a criminalidade nas cidades, a Poesia também se transfigurou em sua forma, oferecendo o poema curto, sintético, a oralidade mínima; a dialetalidade local do campo e dos guetos de exclusão social, porque a Arte copia a vida... Escafedeu-se dos domínios das classes dominantes, descendo o morro no “funk” e no “hip hop”.
O andamento rítmico, o cadenciamento do soneto traduz a placidez da vida a partir do século 13 (com Petrarca), consolidando-se com Shakespeare nos séculos 17 e 18, cursivo de beleza estética coerente com a realidade até o limiar do século 20. Mais além não foi. Vazou-se, no Brasil com Olavo Bilac. O próprio soneto ultrapassou-se temporalmente.
A primeira guerra mundial mudou tudo... E espocaram os fogos da rebeldia no Movimento Modernista no Brasil de 1922. E eu sou um desses rebeldes retardatários... E ponto!
Rompemos com a rima, mas não rompemos com o ritmo. E isso é o importante: a Poesia se tornou mais palatável, mais ágil, mais bonita, mais versátil... E muito mais difícil de ser concebida – gestada – porque agora, no modernismo, não se tem as muletas da silabação fônica, rimas, esquemas de rimação e apresentação formal de tal ou qual número de versos para a Poesia vir ao mundo. Somente as figuras de estilo vocabular balizam a linguagem codificada que a Poesia, em vez de encerrar, liberta pelo milagre da Palavra em seu vértice mais profundo e conotativo...
É só teres o trabalho de ler alguns dos meus textos nas modalidades “ensaios”, “tutoriais” e “tutoriais – dicas” e “teoria literária” (critérios técnicos classificatórios do Recanto das Letras), que obterás a ratificação de tudo isto que ora abordo. Acerca disso me manifestei em vários textos, dos quais já nem lembro o título dos vários estudos publicados. É necessário que pesquises. Nem mais rememoro textos com exatidão, em minha já alentada obra em prosa e verso.
Porém, podes estar certo, mergulharei, por vezes, nos teus jardins de poemas da contemporaneidade e me deliciarei, no mínimo, com o teu crescimento. Porque aquele que aceita a crítica intelectualiza-se, cresce, e estimula o analista a aprofundar a linguagem. E, por certo, vai descobrir que o formato dos versos e limitações à criação, sob qualquer ponto de vista formal, já era...
A perturbação da consciência, caracterizada por obscurecimento e lentidão do pensamento não pode atingir os lúcidos capazes de criar o bom poema livre, o relato da vida tal como ela é, parece ser ou se imagina que possa vir a ser, sempre em linguagem não derramada, concisa, metafórica.
Cada época tem os seus cânones estéticos, seus critérios de beleza... É preciso tocar a vida, porque a fila anda...
– Do livro DICAS SOBRE POESIA, 2009/10.
http://recantodasletras.uol.com.br/tutoriais/2284420
“CAPTAR A ALMA” EM POESIA
Joaquim Moncks
É relativamente fácil perceber o que o autor quis dizer, acaso ele tenha sabido exprimir-se metaforicamente em palavras, em linguagem figurada, portanto. É só parar pra pensar sobre o poema e fruí-lo.
Se ele estiver bem acabado e contiver alguma sugestionalidade e transcendência, perfaz-se o caminho emocional e intelectual do poema. A peça perviverá como objeto estético e de alumbramento para todo o sempre. É o que acontece com obras que contam milênios de existência e sempre nos encantam...
Porém, se a obra não apresentar os elementos característicos do gênero Poesia, formalmente, não se terá radicado como peça poética e, sim, como mera expressão de comunicação escrita em linguagem direta, muito longe do que compreendemos como expressão poética. Estes escritos são imensamente fáceis de ser entendidos. E só isto, porque nem necessitam ser compreendidos. São de uma natural obviedade...
"Captar a alma" não é algo pra ser explicado, e, sim, sentido. E o "inexplicável", principalmente em Poesia, à hora dos comentários, se resume em uma ou duas linhas. O restante que se escreve é apenas juízo de valor sobre a validade ou não da obra. Abrir o poema é reduzi-lo ao nada...
A tarefa a que me dedico é a do analista crítico, daí a natural dissecação. Mas é este feeling diferenciado que permite alguma isenção quanto à obra. O "cerne" da instigação literária nunca é o do autor, porque este, particularmente no gênero Poesia, nada escreve. Quem o faz é o seu alter ego. E este, porque não está permanentemente vivo (somente quando lhe é dado o direito de viver e falar) não necessita de loas, de elogios.
Mas compreendo que é mais agradável não parar pra pensar sobre o que se apresenta aparentemente difícil e não se conhece os cânones usuais...
A Poesia é tridimensional. Usualmente, nasce mais ou menos assim, seguindo um itinerário até o plano consciente da memória: a percepção sensitiva do fato no plano do real; o relato sobre o fato vivido ou fantasiado; os véus sobre a palavra, no texto criado, pra não relatar o fato como ele aconteceu e, sim, na visão idealística do alter ego do autor. Porém este não vive no plano da realidade, porque é criatura haurida do espiritual, do imaterial, vivendo por obra e arte.
O poema nunca tem a alma do autor, porque personagem e autor nunca serão os mesmos, ainda que o autor imagine que se estatelou no mundo da palavra e por ela, vive. O personagem criado, e que fala normalmente no “Eu”, não é o ego do autor, e, sim, o OUTRO EU.
E o que é pior: o autor pensa que o criticado é ele, que nem mais existe depois da obra andar no mundo, somente para os efeitos de direitos autorais... E fica amuado, contrafeito, se a análise crítica lhe for desfavorável.
Crítica literária não pode ser confundida (embora exista a corrente crítica psicoliterária) com análise psicológica da figura do autor. Para o bom criador, a crítica é vista como análise ocupacional.
Bem, aí está a diferença entre os diletantes e os consagrados, que têm os seus personagens guindados à imortalidade. Como o autor é a figura aparente, criador e criado se tornam, também, imortais.
– Do livro DICAS SOBRE POESIA, 2009/10.
tp://recantodasletras.uol.com.br/ensaios/2185010
O OUTRO EU
Joaquim Moncks
O uso do vocábulo "Eu" é a delação da possessão intrínseca (do autor), imanente ao mesmo, e que exclui o leitor, que o enxota, que nem percebe que ele existe, que deixa de lhe abrir a porta, que não permite que o mesmo olhe pra dentro de tua casa, e se "aposse" do teu texto, que é justamente quando a literatura cumpre o seu papel, a sua finalidade no mundo emocional e pensamental, produzindo a devida reflexão sobre o tema aventado.
O texto pode convencer ou não, mas isto é outra história. O que importa é que ocorra a novidade: pensar sobre o que foi motivo de abordagem: amor, injustiça, liberdade, ecologia, etc.
E quando no escrito transparece o tratamento possessivo, só a ele aproveita, só é útil ao seu autor, nunca será dos domínios da humanidade. Escrito que tem esta abordagem é memorialismo ou terapia psicológica personalizada. Só serve para aquele que o escreveu, a ninguém mais. O memorialismo é este "falar de mim e de meu entorno", mesmo que seja útil e oportuno, e sirva como depoimento histórico ou crônica de época e/ou de costumes.
Em arte literária, já de há muito a humanidade ultrapassou o individual, segundo as melhores teorias de experts sobre tal assunto. Quem escreve não é o ego, é o alter ego, ou seja, é o outro eu.
Fernando Pessoa – o poeta a quem tanto admiro – descobriu e delatou isto ao mundo, lá por 1919.
Reconheceu que nele havia vários personagens (com voz, vida e pensamento próprios) e criou o vocábulo HETERÔNIMO: “outro nome, imaginário, que um homem de letras empresta a certas obras suas, atribuindo a esse autor por ele criado qualidades e tendências literárias próprias, individuais, diferentes das do criador”, conforme o Aurélio.
Tudo para identificar e diferençar do seu ORTÔNIMO: “nome correto; nome verdadeiro, real: O ortônimo de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis é Fernando Pessoa”, ainda segundo Buarque de Holanda.
Porém o autor Fernando Pessoa também assumiu o que ele mesmo pensava e, neste caso, escreve se identificando como Fernando Pessoa, ele-mesmo-o-outro. Como se pode ver, ele não assina o texto como Fernando Pessoa, ele-mesmo, porque sabe que quem escreve não é ele, e, sim, o seu alter ego. Ele sabia que aquele que cria o escrito, que faz a lavratura, psicologicamente, não é a sua “persona”, e, sim, a do personagem-escritor que habita nele, mas que não é ele próprio.
Tenho preocupação com este temário desde os meus primeiros vagidos, e aqui vai um poema em que fica clara a preocupação pontual para com o tema:
O OUTRO EU
Joaquim Moncks
Na Poesia, a morte transita descalça
com sua aura de fogo.
Punhais gemem,
obscuros,
o abscôndito e esquecido esquife.
O medo na boca, na solidão
a morte transita.
A voz da morte desenha o poema
E algo nasce do obscuro,
da sombra disforme
que apunhala o alquebrado corpo.
Não há dor mais doída
nem gemido mais lancinante.
Vazar a lucidez
e permanecer íntegro (no que sobra)
é o estóico esforço.
Máscaras velam o poeta,
ervas daninhas cobrem a história
do outro eu que ressurge
– mudo –
no túnel do tempo.
– Do livro O SÓTÃO DO MISTÉRIO. Porto Alegre: Sul Americana, 1992, p. 93.
http://recantodasletras.uol.com.br/poesias/42263
Tudo isto parece muito complicado, mas é só aparentemente intrincado. O que é necessário perceber é que o ato de escrever (literariamente) não se trata, apenas, de derramar sobre o papel alguns relatos da vida pessoal do autor, e, sim, a partir destas vivências, vir a construir um novo personagem: autônomo, independente, que viverá suas peripécias à revelia do que o autor pretende, por vezes tomando as rédeas do próprio destino, andando no mundo de “per se”.
Porém, para isto, é necessário que o novato entenda que os vocábulos “Eu” e o possessivo “Meu” são reptos proibitivos, particularmente em Poesia. E isto pertine e nasce dentro da cuca. A missão do analista é somente chamar a atenção dos autores para indevida utilização.
No entanto, há situações – principalmente em Poesia – em que o ego poético está tão precisamente definido, que o “eu” que aparece no texto é a voz do alter ego do autor. Ou seja, o ego do personagem.
E voltemos ao mestre Fernando Pessoa, na voz de seu heterônimo Álvaro de Campos, em “Tabacaria”, 1928:
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
...”
– Do livro DICAS SOBRE POESIA, 2009/10.
http://recantodasletras.uol.com.br/ensaios/2184736
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